
Ele era pontual, era trabalhador, era responsável, era organizado. Era discreto, muito discreto. Acordava cedo para fazer a barba, pentear os cabelos, se vestir, comer alguma coisa, escovar os dentes e, antes de sair, arrumar a cama. O percurso era o mesmo para o trabalho. Dobrava a primeira à direita onde estava a farmácia. Depois seguia direto até uma videolocadora que ficava à direita virando então à esquerda e mais quatro quarteirões. Trabalhava ali desde muito tempo. Não era gerente geral e nem de setor. Mas era quase assessor de gerência, quase importante.
Todo dia tirava a hora do almoço no mesmo horário. Como morava perto, comprava comida ao quilo e levava para comer em casa com um copo de suco. Arrumava ou lavava alguma coisa e voltava para a segunda parte do dia. Depois do expediente, às quartas-feiras passava no banco para tirar um extrato da conta e às sextas-feiras ia ao super-mercado comprar o que faltava para a semana seguinte. Não estocava mercadoria, apenas o necessário para uma semana.
Nos finais de semanas, andava um pouco perto do condomino de apartamentos módicos onde morava e isso servia de exercício fisíco. Talvez a praia, ou um giro no shopping center, ou uma sessão de cinema. Nunca a última sessão para não dormir muito tarde. Quando não, ia até a locadora e sempre demorava uma meia hora para escolher algum filme dramático, com finais pesados, chorosos. Os assistia na pequena tv de 20 polegadas sem tela plana, sem surround e com as luzes apagadas para dormir ali logo após os créditos do filme.
A semana passou exatamente como as anteriores e a atividade planejada para o final de semana foi uma visita à locadora e um filme dramático. O filme se desenrolava e ele se sentia leve. E no meio do filme ele dormiu, não um sono dramático, mas um sono leve, pacífico, sem dor, sem barulho e sem fim. Não haveria mais trabalho, nem extratos de banco às quartas-feiras, nem super-mercados às sextas-feiras, nem andadas, nem shopping, nem filmes nos finais de semana. Não haveria também gás no bujão. Junto com ele, também se esvaiu.
P.S. Texto baseado na letra da música "Um Homem Chamado Alfredo" (Vinícius/Toquinho)