Thursday, March 16, 2006

Um Homem Sem Nome


Ele era pontual, era trabalhador, era responsável, era organizado. Era discreto, muito discreto. Acordava cedo para fazer a barba, pentear os cabelos, se vestir, comer alguma coisa, escovar os dentes e, antes de sair, arrumar a cama. O percurso era o mesmo para o trabalho. Dobrava a primeira à direita onde estava a farmácia. Depois seguia direto até uma videolocadora que ficava à direita virando então à esquerda e mais quatro quarteirões. Trabalhava ali desde muito tempo. Não era gerente geral e nem de setor. Mas era quase assessor de gerência, quase importante.

Todo dia tirava a hora do almoço no mesmo horário. Como morava perto, comprava comida ao quilo e levava para comer em casa com um copo de suco. Arrumava ou lavava alguma coisa e voltava para a segunda parte do dia. Depois do expediente, às quartas-feiras passava no banco para tirar um extrato da conta e às sextas-feiras ia ao super-mercado comprar o que faltava para a semana seguinte. Não estocava mercadoria, apenas o necessário para uma semana.

Nos finais de semanas, andava um pouco perto do condomino de apartamentos módicos onde morava e isso servia de exercício fisíco. Talvez a praia, ou um giro no shopping center, ou uma sessão de cinema. Nunca a última sessão para não dormir muito tarde. Quando não, ia até a locadora e sempre demorava uma meia hora para escolher algum filme dramático, com finais pesados, chorosos. Os assistia na pequena tv de 20 polegadas sem tela plana, sem surround e com as luzes apagadas para dormir ali logo após os créditos do filme.

A semana passou exatamente como as anteriores e a atividade planejada para o final de semana foi uma visita à locadora e um filme dramático. O filme se desenrolava e ele se sentia leve. E no meio do filme ele dormiu, não um sono dramático, mas um sono leve, pacífico, sem dor, sem barulho e sem fim. Não haveria mais trabalho, nem extratos de banco às quartas-feiras, nem super-mercados às sextas-feiras, nem andadas, nem shopping, nem filmes nos finais de semana. Não haveria também gás no bujão. Junto com ele, também se esvaiu.

P.S. Texto baseado na letra da música "Um Homem Chamado Alfredo" (Vinícius/Toquinho)

21 comments:

J Lívio said...

Tentei de todas as formas editar o credito da música e colocar o Vinicius tambem, mas o tal de blogspot nao aceitou a alteração até agora. Fica pelo menos registrado aqui nos comentts!!

Márcia(clarinha) said...

Oi meu querido,
não estou conseguindo postar,blogspot com problemas.
Que lindo conto,pena que triste como a vida do pobre homem sem final feliz!!
lindo dia,
beijossssssssssss

beto said...

John, rapaz, vc está um verdadeiro Hitchcock, que suspense!!! hehehe
Eu adoro toquinho, vc sabe né? Vou ouvir essa música depois!

Ah, essa história também parece aquela do chico: "todo dia ela faz tudo sempre igual, se sacode as seis horas da manhã e sorri um sorriso pontual.."

abração amigo.

beto said...

Ah, john, esqueci de dizewr, mas bati o carro ontem... :( Um taxista me empurrou em direção a um poste!! Mas ta tudo bem, não foi forte não e o cara vai pagar, a perícia disse que a culpa foi dele... óbvio!!!! Logo eu, o ayrton senna de fortaleza, ia ter culpa? hehehe

Lilian Paula said...

Nossa que triste... definitivamente não quero uma vida assim pra mim!!!
super bjos

J Lívio said...

Clarinha, pois arruma logo esse teu blog ai pras minhas leituras diarias!! :))

Fernando said...

Se você pudesse ouvir minha voz comentando, seria num tom suave que simplesmente diria: "Fantástico"...

Deixa o desenrolar nas últimas linhas... "Fantástico"...

Alguém poderia imaginar que seria este o fim... da semana, do dia, do filme e do post?

"..."


Abraço!

Jana said...

Maravilhoso texto....

Surpreendente!

Beijos

SaYô said...

Para ele,esse final não seria feliz? Acredito que sim,afinal,tudo prosseguiu na mesma linha da sua vida diária.Acabou tudo tão 'organizado,discreto...'

J Lívio said...

Sayô, concordo que do ponto de vista dele, o final foi feliz sim! Sem sustos, sem surpresas, sem barulho e nem desorganização!!

Bel said...

:**(
Triste... feliz... quem sabe?
Vou baixar a música, incrível eu não conhecer, a dupla é top de linha na minha preferência.
Amei o texto.
Bjo

Dani F. said...

Lívio...
Lindo e faz pensar na efemeridade desta coisa chamad vida...um dia ela está noutro pode ter saído sem fechar a porta...
Um abraço e bom final de semana prá vc!

Márcia(clarinha) said...

beijo,beijo e beijosssssssssss

Ana D said...

Acho q temo mais em comum que o template rsrs...Talvez o gosto pelos pequenos e angustiados e dramticos personagens rs..abraço Livio.

line gilmore said...

puxa...
lindoooo
triste e comum, do tipo q pode acontecer com qualquer vizinho da gente...
a música é linda também!

bjooo

Márcia(clarinha) said...

Quando quiser a minha vista está a sua disposição,use e abuse,rssssss
beijossssssssssss

Tiago said...

Não fosse essa fixação por cinema e eu diria q o bujão de gás fez um belíssimo trabalho, escapando pelo buraco.

Dona Gérbera said...

Bem que eu desconfiei que tinha um quê do *MEU* Vinícius neste post... triste, mas bonito que só!!!

honey said...

engraçado
uando estava lendo pensei nessa musica sem ver q era baseado nela
:S

Alex said...

Putz...
Eu nunca pensei que o final seria tão dramático. Forte. Intenso. MUITO BOM. Gostei mesmo. Triste fim, mas prazeroso para ele né?

Abração eparabéns pelo blog.

Dona Gérbera said...

Respondendo às perguntinhas deixadas no "meu jardim de uma só flor": A faculdade é a FGF, o curso é Direito e as disciplinas são Direito Internacional Público, Direito Tributário II e Processual Administrativo (essa informação foi um bônus!).