Monday, May 26, 2008

Estraga-prazeres


Quero me aposentar! Já falei várias vezes que quero me aposentar e ninguém me leva a sério.


Logo me dizem que não tenho idade para me aposentar. Mas e daí, o que tem idade a ver com o desejo das pessoas se aposentarem? Acho que a minha idade está corretíssima para a aposentaria. Aguento uma balada de um dia todo andando conhecendo lugares novos; aguento comer fast-food sem ter dor de barriga e nem me preocupar muito com o efeitos colaterais. Posso esperar numa fila, posso dirigir horas a fio...e ainda me dizem que não é a idade para se aposentar. Muito provavelmente eles querem que eu esteja mais pra lá do que pra cá para pensar em me aposentar, e ai então nada funciona direito. O cansaço já não deixa fazer muita coisa, as pernas doem, os joelhos doem, a comida tem que ser especial, o sol tem que ser frio, a neve tem que ser quente, o dia tem que ser curto, e os horários para tomar os remédios precisos. Não se pode esquiar e nem andar a cavalo porque algum osso pode quebrar. O que dirá andar de triciclo, ir numa montanha russa radical, dar um passeio de buggie com emoção.

Quero me aposentar já! Não quero sair numa jornada sem fim para conhecer o mundo, mas quero me dar o luxo de não ter compromisso pela manhã, de acordar tarde, de comer a qualquer hora, de não ter que enfrentar o transito no horário de pico, de ir ao cinema numa terça feira, de dormir 1 hora da manhã...e não ter a consciencia pesada e nem ficar cansado demais para ter que ir trabalhar.


Quero minha aposentadoria e não um calendário de férias. Não quero ninguém ditando quando eu posso viajar e quando tenho que voltar. Quero tirar férias quando eu quiser tirar férias, e quando voltar não ter que colocar nada em dia. Quero cuidar do jardim pela manhã, do aquário pela tarde e sentar na porta de casa no inicio da noite.


E todas essas coisas quero fazer agora e não daqui a não sei quanto anos quando eu não puder mais fazer metade dessas coisas todas. Não quero me aposentar quando não poder andar por mais de meia hora; quando não mais suportar o sol das 15 horas; quando não conseguir ficar acordado num filme de 90 minutos; quando não poder ter uma diferença de mais de 5 horas entre o almoço e o jantar por causa dos remédios que se tem que tomar. Quero me aposentar e poder morder rapadura, chupar cana e comer milho na espiga.


E ainda tem aqueles que me dizem que preciso ter fundos para sustentar minha aposentaria. Esses são realmente uns estraga-prazeres. Fico furioso e não comento mais nada. Levanto e vou me arrumar para dormir porque tenho que estar no escritório antes da 9 da manhã.

Friday, March 28, 2008

Helplessness - hum?



A minha língua mãe é o português, mas tem vezes que a gente quer se expressar e a língua mãe nos abandona e fica apenas a língua adotada a nos dar suporte. Nesse momento estou sentindo uma enorme sensação de "helplessness". Não sei exatamente como isso se traduziria em palavras, mas sei exatamente como isso se traduz em sentimento. Talvez seja a falta de poder revelada por uma inabilidade de reagir. Não sei!! Definitivamente não sei, só sinto.


E o telefone não toca, nenhuma das três linhas. Nem o meu celular toca. Nada, só o som da música ambiental de escritório, um jazz apianado extremamente repetitivo nas notas. E eu aqui esperando acontecer, totalmente helpless.


A única coisa que posso esperar é que o telefone não toque, ninguém se lembre de mim, tudo seja resolvido, todos fiquem felizes e eu possa sair daqui, mesmo que exausto, pegar meu caminho de casa, ouvir noticias pelo radio e voltar a me sentir helpful.


E quem disse que a vida era fácil? Se alguém disse, mentiu!

Thursday, March 20, 2008

Short Stories - O passeio de taxi


Ele imaginou que em 30 segundos ela voltaria. Mas a porta bateu e o elevador desceu. Ela nem olhou para tras. Não havia soluços na garganta nem lágrimas nos olhos. Havia a sensação de tempo perdido, de investimento mal aplicado, de amor dilacerado. E depois de acomodada no taxi ela se deu a pensar.

Quando se aplica em dinheiro e se perde dinheiro, o fato é simples. O dinheiro é físico e uma vez que não se tem, não há mais como resgastá-lo. Há como se fazer mais dinheiro, mas não mais aquele.

Quando se aplica no amor e se perde o amor, o fato é simples. O amor é sentimento e uma vez que não se tem, não há mais como resgatá-lo. Há como amar outra vez, mas não mais aquele.

O taxi parava nos sinais e e ela continuava a pensar.

Não sabia se fora paixão ou amor. Ela sempre dizia que deixaria as definições e as diferenças serem explicadas pelos poetas que sempre teem mais tempo de experimentar e fazer a compensação dos seus experimentos. O tempo não fora importante porque o amor dura o tempo que dura e nem um segundo a mais. O importante é a dedicação e cada segundo de um tempo que não existe, mas que se torce que não acabe nunca. E assim foi com ela. A dedicação foi incondicional e o segundo durou o seu tempo.

O taxi parou no destino final e ela pediu para voltar. O mesmo caminho de volta, o elevador, a porta e desta vez ela não usou a chave visto que não era mais a sua casa. Bateu à porta e foi atendida por ele. Pegou uns restos de coisas, o beijou no rosto, entregou a chave e confirmou que não iria mudar o número do celular. Ele, um ponto de interrogação. Ela, um ponto parágrafo.

No elevador ela ainda se deixou pensar. Mas desse último pensar nada mais registrou, apenas que o amor não acaba nunca. Ele pode, sim, mudar. Mas acabar, não!! Isso não é coisa de amor.

Retoca a maquiagem e o taxi parte outra vez.